O texto abaixo é uma uma pessoa comum. Não é de um colunista famoso ou de Shakespeare.
Esta é a primeira vez que ele está sendo publicado na Rede.
Quem o escreveu preferiu se preservar das críticas que podem ser crueis e desumanas... E acho que é uma decisão perfeitamente compreensível.
Ao receber o texto em meu email reconheci várias críticas a mim e decidi escrever um post dando voz a essas críticas (
está aqui no Meme de Carbono)
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Quem é você mesmo?
Há males que vem para o bem. Ô, frasezinha porreta! Quanto pior eu enxergo, mais eu vejo. E a prática de meditação e relaxamento vem me tornando uma criatura muito esquisita. Uma espécie de não-eu.
Eu era uma pessoa capaz de subir em árvores para fazer discurso. Tinha sempre um banquinho à mão onde podia subir para falar e/ou ouvir melhor. Hoje tudo o que desejo é distribuir um farto estoque de papel higiênico entre as pessoas. Ou desconfiômetros novos. Whatever fits best.
Fico impressionada com o preconceito da ‘classe dominante’, gente ‘possuidora’ de bons recursos intelectuais e culturais, mas que não consegue deixar de destilar sua arrogância encapada em argumentos fúteis e falhos. Lugar comum, clichê e aquele velho tom panfletário pra lá de démodé. Na maior parte das vezes, discursos decalcados.
Por conta do vestibular da Puc, choveram e-mails raivosos e magoados (tipo uvas-verdes) contra a universidade. Os adjetivos mais ressentidos. Faculdade de elite, de mauricinhos, patricinhas e playboyzinhos com iPods no ouvido e tênis da moda; faculdade de maconheiros; templo da burguesia falida carioca. E por aí vai. Isso tudo na mesma semana em que meu filho prestava vestibular para esse verdadeiro covil de desclassificados.
As pessoas esquecem que:
1. Quem entra para a universidade pública é, em grande maioria (favor checar os rankings publicados nos principais jornais), justamente a elite que pode pagar um cursinho com mensalidade de dois mil reais. Lá estará, portanto, a nata da burguesia elitista carioca. Os tais playboyzinhos de iPod no ouvido.
2. As universidades públicas criaram um sistema de cotas que não está funcionando e é absurdamente preconceituoso, servindo apenas para perpetuar o paternalismo reinante no país.
3. Há maconheiros às pencas nas universidades públicas. Cachaceiros também. E gente que se arrasta por sete, oito anos para completar uma graduação de quatro anos. É de graça. Viva a cachaça e o bandejão!
4. Existem bolsas na universidade de ‘elite’. E muitas. Umas por mérito e outras para quem precisa delas.
Nota da redação: meu pai era ‘pobrinho’ e foi aluno bolsista da Puc enquanto estudou matemática, física e filosofia. Mérito e necessidade. Eu estudei na Puc com bolsa parcial por mérito, já que me classifiquei em sétimo lugar no geral para o meu curso, abrindo mão da bolsa a que teria direito por ser filha de professor. Ah, mas eu era burguesinha do Leblon, criada a Nescau e peito de frango na quadra da praia e oriunda de bom colégio particular (e religioso – ai, meu deus, quanta desgraça, não é?).
5. Todos reclamaram da inscrição da Puc, paga uma única vez, mas ninguém abriu a boca para reclamar da inscrição da Uerj, por exemplo. Para cada fase – e são três – paga-se uma boa taxa. Idem para as demais universidades públicas de gente do bem.
6. As universidades públicas estão caindo aos pedaços e falta segurança em seus campi. (Viu só? Eu sei Latim! Aprendi na faculdade de elite, mas aulas de Latim aos sábados, quando eu deixava de bronzear meu belo corpitcho nas areias escaldantes do Leblon e ia estudar.) Mas um campus limpo, organizado, seguro, com laboratórios desbundantes e uma biblioteca maravilhosa é motivo de deboche e escárnio.
7. Não há greve na universidade de elite porque os professores recebem em dia e não faltam. Ano letivo é uma coisa que funciona.
Em todos os lugares há gentes e gentes. Mas classificar a universidade particular como o templo dos desgraçados é coisa de gente preconceituosa, mal-informada e, me desculpem, invejosa. Sim, há inveja aí. Sempre houve.
Faça a sua parte então. Ideologicamente correta. Matricule seu filho numa escola pública e espere que ele passe no vestibular. Cobre do governo o bom ensino público de base e não a aprovação automática que gera analfabetos funcionais. Pratique o que você prega.
Panfletar e subir no banquinho é mole. Quero ver é fazer.
O que você faz com o seu tempo, por exemplo? O que você faz com toda a sua cultura e o seu conhecimento? Passa para frente? Ajuda a quem tem menos oportunidades? Ou fica só vociferando na sua rodinha de amigos intelectuais? Você compartilha o seu conhecimento? Cria ferramentas úteis que possam ajudar alguém? Ensina, educa, informa? Alimenta, veste, doa?
São justamente essas pessoas que apontam o dedo para os playboyzinhos e a elite as que menos fazem por quem tem menos. Preferem ficar encasteladas na sua falsa modéstia a levantar-se e agir. Desconhecem o que seja trabalho voluntário. Desconhecem a palavra doação. Desconhecem qualquer coisa que não esteja no confortável alcance de seus próprios umbigos. Esperam que o governo ou quem quer que seja, mas não eles mesmos, faça a sua parte e pronto. Acham que democracia e cidadania são palavras de mesa de bar, mas sequer sabem como praticá-las ou ensiná-las concretamente a quem nunca teve esses direitos.
Acham seus umbigos lindos. Choram pelos umbigos dos outros, mas são incapazes de olhar bem para o outro e fazer algo de útil e concreto. Preferem a demagogia cômoda do círculo de amigos do bem – os que têm o discurso pronto e o banquinho sempre à mão em causa própria, fazendo crer aos outros que são gente do bem.
Neste país estranho, quem tem dinheiro é um desgraçado. É merecedor dos piores adjetivos, normalmente terminados em ‘inho(a)’. Simplesmente porque trabalham uma vida inteira, conseguem evoluir, progredir, ganhar dinheiro de forma honesta, mas o fato de tê-lo os transformam em cretinos aproveitadores.
De quem me aproveito com o meu trabalho? A quem agrido com a minha poupança que me permite estudar, saber mais, viajar e ter cultura e conhecimento? A quem agrido quando o que eu ganho permite que eu ajude a quem tem menos? A quem estou magoando quando vou a uma escola com meus filhos doar material escolar e tempo para um colinho e uma história? A quem agrido quando escolho bancar a medicação de uma criança HIV-positiva com um dinheiro que eu não esperava e ganhei? A quem incomodo quando adotamos umas cartinhas para o papai noel nos Correios em dezembro? A quem faço mal quando realizo um sonho de alguém que quer simplesmente uma boneca ou um par de tênis?
De quem estou tirando a chance quando explico ao meu filho que aquela ‘universidade de elite’ é boa, sim, e merecedora de bons adjetivos, não das palavras de um discurso tacanho e vazio? Por que ele deve sentir-se ‘culpado’ (é, eu ouvi...) se não passar para uma universidade pública e sim para a de elite? Por que meu filho não pode ter uma mochila boa e confortável, ou um tênis bonito que ele gosta? Por que ‘os outros’ (= gente do bem) não podem? Por que ele não pode andar na rua com seu tênis e sua mochila sem ser assaltado porque alguém tem que comprar ‘bagulho’? Por que ele não pode ter? Por que eu não posso usar meu iPod enquanto caminho na Lagoa? O que será mesmo que tanto agride num iPod? O fato de eu poder organizar minhas músicas como eu quero e ter um earphone que me dá uma qualidade de música melhor? O que será que esses objetos representam tanto assim?
O quanto diminui uma pessoa ter um tênis nike, um iPod, um carro novo, uma casa bonita e poder viajar nas férias? O quanto daz dela um imbecil sentar num restaurante, pedir uma boa comida e tomar um bom vinho? O que esvazia uma pessoa alugar um apartamento numa cidade estrangeira para morar e estudar se é o que lhe dá prazer e satisfação? O que há de errado em querer ter e aproveitar as oportunidades na vida? O fato de eu ter conseguido um pouco mais -- com trabalho, estudo, esforço e de uma forma honesta, sem roubar, passar por cima de pescoços e comer fígados alheios – me imputa essa culpa toda que ainda e sempre tentam imputar a quem “conseguiu”?
Para onde estamos caminhando? Para uma vida cheia de culpas e ‘nãos’? E quantos ‘nãos’ nós mesmos não dizemos todos os dias por conta dessa culpa que nos é incutida pela ‘intelligentzia’ reinante? Por que a minha cidade tem de ser reduzida como foi nas últimas eleições porque um número absurdo de eleitores simplesmente absteve-se de mudar as coisas? (Só na seção onde trabalhei foram 84 – uma seção pequenina.) Por que as pessoas não aproveitaram essa oportunidade única depois de tantos anos de absurdos na nossa cidade simplesmente deixando de curtir um feriadão entre tantos que temos o ano inteiro? Feriado de funcionalismo público, ser-vi-do-res públicos, que depois vêm fazer passeata na Pinheiro Machado por melhores salários e condições de trabalho! (Nota da redação: Meia dúzia fazem a passeata e o resto lota os bares da região para tomar cerveja e gritar ‘palavras de ordem’ justamente com o dinheiro que dizem que lhes falta.)
E por que essa equação estúpida?
Riquinho = gente inescrupulosa, gente do mal, gente que não presta, vi-lão
O Pobre = gente boa, gente do bem, gente honesta, ví-ti-mas
Ahn?
Cresçam. Já está mais do que na hora.